Nutrir – Quando o sabor afaga o coração
Comer nunca foi apenas alimentar o corpo. Comer também é sentir, recordar, pertencer.
Toda casa possui uma espécie de identidade invisível feita de aromas. Há lares que cheiram a café passado na hora, outros a alho refogado, pão assando, canela, erva-doce, molho de tomate ou feijão recém – temperado. São cheiros tão cotidianos que quase não percebemos quando estão presentes. Mas basta reencontrá-los muitos anos depois para que alguma porta antiga se abra dentro de nós. De repente, não estamos mais apenas diante de um prato. Estamos diante de uma lembrança.
Existe um abraço escondido dentro de um bolinho de chuva. Há aconchego numa fatia ainda morna de bolo de fubá com erva-doce. O cheiro do café pode trazer de volta uma mesa antiga, uma toalha florida, uma conversa entre adultos que a criança fingia não escutar.
E aquele cheiro de comida vindo da cozinha enquanto brincávamos?
Era quase um relógio afetivo anunciando: “Daqui a pouco estaremos todos juntos à mesa.”
A criança aprende os sabores muito antes de compreender o significado emocional que eles terão em sua vida. Somente depois de adulta poderá perceber que não sentia apenas o gosto do bolo. Sentia também a presença de quem o preparava, a segurança daquela casa e a sensação de ser cuidada.
Algumas receitas tornam-se verdadeiras heranças afetivas. Passam de avós para mães, de mães para filhos e, algumas vezes, ninguém sabe mais exatamente onde começaram.
Falta um ingrediente que não pode ser comprado: a lembrança daquele tempo.
O olfato possui uma relação particularmente íntima com memória e emoção. Um aroma pode despertar recordações com uma rapidez surpreendente: lugares, pessoas e acontecimentos que pareciam esquecidos reaparecem acompanhados, muitas vezes, das sensações daquele momento. Certos cheiros parecem capazes de atravessar décadas.
Uma erva, um doce, uma fruta ou um tempero podem nos transportar novamente para uma cozinha que talvez nem exista mais.
E então acontece algo bonito: por alguns instantes, a criança que fomos senta-se novamente à mesa conosco.
Preparar uma comida que pertence à nossa história pode ser uma forma delicada de afagar o coração.
Num dia difícil, talvez o que desejemos não seja um prato sofisticado. Queremos a sopa que alguém fazia quando estávamos doentes. O pão com manteiga das tardes. O arroz-doce das festas. O chocolate quente dos dias frios. O bolo simples que perfumava a casa inteira.
Não porque esses alimentos tenham o poder de resolver nossas tristezas, mas porque carregam uma linguagem afetiva conhecida: “Aqui existe cuidado.”
E podemos criar novas memórias da mesma maneira.
Quando cozinhamos com uma criança, permitimos que ela misture a massa, sinta o cheiro das ervas, prove um pedacinho, suje a bancada e espere impaciente o bolo ficar pronto, estamos preparando muito mais do que alimento. Estamos construindo uma lembrança.
Um dia, talvez já adulta, ela sinta aquele mesmo aroma em algum lugar distante e, sem saber exatamente por quê, sorria.
Neste mês dedicado à criança e à criança interior, vale uma pequena experiência: prepare uma receita da sua infância.
Enquanto cozinha, perceba os aromas. Recorde quem preparava aquele alimento, como era a cozinha, quem estava à mesa e quais sentimentos aquela lembrança desperta.
Depois experimente devagar, você vai descobrir que determinados sabores nunca pertenceram apenas ao paladar.
Alguns alimentos nutrem o corpo. Outros, além disso, guardam histórias. E existem aqueles que, ao primeiro aroma, parecem atravessar o tempo somente para nos oferecer novamente um antigo abraço.
Dicas da Minha Infância
Receitas que ainda têm cheiro de carinho
Existem receitas que não estão apenas no caderno de cozinha. Elas ficam guardadas em outro lugar: na memória. São sabores simples que atravessam os anos e, quando voltam à mesa, parecem trazer junto uma tarde antiga, uma cozinha conhecida e o carinho de alguém que cuidava de nós.
Para acompanhar nosso Nutrir, escolhi duas receitas que têm gosto de infância: Bolinho de Chuva e Bolo de Fubá com Erva-Doce.
Bolinho de Chuva — um abraço coberto de açúcar e canela
Ingredientes: 2 ovos; ½ xícara de açúcar; 1 xícara de leite; aproximadamente 2½ xícaras de farinha de trigo; 1 colher (sopa) de fermento em pó; 1 pitada de sal; óleo para fritar; açúcar e canela para finalizar.
Como fazer: misture os ovos com o açúcar e acrescente o leite. Aos poucos, coloque a farinha e a pitadinha de sal, mexendo até obter uma massa cremosa e consistente, que caia lentamente da colher. Por último, misture delicadamente o fermento.
Aqueça o óleo em fogo médio e coloque pequenas porções da massa com uma colher. Frite até os bolinhos ficarem douradinhos, retire e deixe escorrer sobre papel-toalha. Ainda mornos, passe-os numa mistura de açúcar com canela.
Dica da minha infância: bolinho de chuva não combina com pressa. Faça pequenos, deixe dourar devagar e coma pelo menos um ainda morninho. Se houver uma tarde chuvosa do lado de fora da janela, melhor ainda. É quase impossível não encontrar uma lembrança dentro dele.
Bolo de Fubá com Erva-Doce — perfume de casa
Ingredientes: 3 ovos; 1½ xícara de açúcar; ½ xícara de óleo; 1 xícara de leite; 1½ xícara de fubá; 1 xícara de farinha de trigo; 1 colher (sopa) de fermento em pó; 1 colher (sopa) de erva-doce.
Como fazer: bata os ovos com o açúcar e acrescente o óleo e o leite. Junte o fubá e a farinha aos poucos, misturando até obter uma massa uniforme. Acrescente a erva-doce e, por último, o fermento.
Coloque em uma forma untada e enfarinhada e leve ao forno preaquecido a 180 °C, por aproximadamente 35 a 45 minutos, ou até que esteja dourado e um palito saia limpo.
Dica da minha infância: não tenha pressa de cortar. Primeiro deixe o perfume do fubá e da erva-doce tomar conta da cozinha. Depois sirva uma fatia ainda levemente morna, acompanhada de café ou chá. Às vezes, o aconchego começa antes da primeira mordida — começa no aroma que anuncia que tem bolo no forno.
Talvez essas receitas não fiquem exatamente iguais às que moram em nossas lembranças. Afinal, as receitas da infância sempre carregam um ingrediente impossível de medir: o afeto de quem as preparava.
Mas podemos prepará-las novamente, reunir quem amamos ao redor da mesa e acrescentar um ingrediente novo: as lembranças que estamos criando agora.
Com muito carinho,
Monica


