Tem certeza que é seguro?

Como sempre, Anna entrou aos pulinhos na casa da avó, como se o chão fosse elástico e o mundo inteiro um convite à descoberta.
Sua pequena estatura denunciava: estava neste planeta há apenas dois anos.
E, se existisse um ranking invisível de proteção celestial, seu Anjo da Guarda certamente ocupava o primeiro lugar, trabalhando em regime intensivo.
— Mãe, chegamos… — anunciou Marysa, já com a voz atravessada de alerta.
— Anna, cuidado! Presta atenção! — repetiu, quase automaticamente, como um mantra que se instalara em seu corpo.
— Mãeeeeee!
— Estou aqui no quintal! — respondeu Tereza, entre suas orquídeas, leve e delicada como um colibri grisalho dançando entre flores.
— Que bom que vocês vieram! Vem cá, minha pequena… me dá um abraço. Que saudade! E você… o que anda comendo pra crescer assim?
— Peixinho… plantinhas… e suco, vó! Tomei todo meu suco de “batukaba”! — disse Anna, com alegria espalhada no rosto e nas mãos.
Mãos que não paravam. Como um pequeno polvo curioso, ela tocava tudo: vasinhos, terra, folhas, ferramentas.
E Tereza, com calma paciente, apenas afastava o que pudesse machucar.
— Anna, cuidado! Tira a mão daí! Anna, estou falando com você! Anna! — insistia Marysa, sem desviar o olhar sequer por um segundo.
Sua atenção era inteira. Sua tensão também.
— Batukaba? — sorriu Tereza. — Ah… jabuticaba! E é bom?
Anna assentiu com entusiasmo, já cercada por pequenos vasos coloridos, montinhos de terra e um pouco de água.
— Faz um vasinho pra mim, vai…
O quintal respirava calma. Mas Marysa não.
Para Tereza, sua filha parecia uma de suas orquídeas adoecidas, algo invisível sugava sua vitalidade.
Havia ali um cansaço que não era apenas físico.
— Olá, minha pequena… — disse, aproximando-se com cuidado. — Você está abatida… está tudo bem?
Marysa não respondeu de imediato. Seus olhos continuavam fixos em Anna, como se qualquer distração pudesse custar caro demais.
— Vamos sentar ali fora… sugeriu Tereza, em tom suave.
— Dá pra ouvir a Anna e a gente conversa um pouco.
Marysa hesitou. O corpo travado. O coração acelerado.
— Não… — disse, quase em sussurro.
— Não. Não é seguro.

O vento passou leve entre as folhas. Anna ria, sujando as mãos de terra, completamente entregue ao instante.
E, por um momento, duas realidades coexistiam no mesmo quintal: a leveza da infância… e o peso invisível de uma mãe que ainda não conseguia descansar.
Porque, às vezes, o perigo não está fora. Está dentro. E aprender a confiar no mundo, é também aprender a confiar na vida que pulsa além do medo.