Vozes Anônimas
Como eram os encontros antes do celular?
Há um tempo — não tão distante assim em que marcar um encontro era um pequeno ato de fé.
Não existia “ tô chegando”. Nem “me manda a localização”.
Muito menos “vou atrasar 5 min”. Existia apenas… combinar e ir.
E o resto? O resto era um mistério delicioso.
“Eu marcava com meus amigos na praça às 15h. Chegava 14h50 — porque, claro, se eles chegassem antes? — e ficava olhando pra todo lado. 15h10… 15h20… e nada. Aí vinha aquele pensamento: ‘será que só eu levei a sério?’ Mas o mais engraçado é que, às vezes, 15h40 aparecia alguém… como se nada tivesse acontecido.”
O atraso não era comunicado. Era vivido. E curiosamente, era aceito com mais leveza.
“Se você combinava 18h, era 18h. Não tinha desculpa de trânsito em tempo real. Ou você se organizava… ou perdia. Simples assim.”
Havia uma responsabilidade silenciosa. Porque, se você não fosse, o outro ficava lá. Esperando. Sem saber. Sem ter como perguntar.
“Uma vez combinei um encontro e caiu uma chuva absurda. Eu pensei: ‘ninguém vai’. Mas fui mesmo assim. Cheguei encharcado… e a outra pessoa estava lá, na mesma situação. A gente riu tanto que nem importava mais o resto.”
Não havia cancelamento de última hora. Havia decisão. Ir… ou não ir. E quem ia… realmente queria estar.
“O mais louco era que a conversa fluía. Ninguém pegava o celular. Porque, não tinha. Então, se ficava sem assunto, a gente inventava. Falava qualquer coisa. Observava o lugar. O silêncio não era constrangedor, era parte.”
As pausas não eram preenchidas por notificações. E, por isso, as presenças eram inteiras.
“Eu já fui pra um encontro em um lugar errado. Fiquei esperando… esperando… até perceber que o combinado era outro ponto da cidade. Fui embora rindo sozinho. No dia seguinte, quando consegui falar com a pessoa, foi mais engraçado do que frustrante.”
O erro não era evitado. Era vivido. E, muitas vezes, virava história.
“Hoje a gente se fala o tempo todo, mas se vê pouco. Antes, era o contrário. E quando via, era inteiro. Olho no olho. Sem distração. Sem dividir atenção com nada.”
Talvez fosse isso. Menos contato, mais encontro.
Hoje, temos precisão. Sabemos onde o outro está. Se está vindo. Se mudou de ideia.
Mas, junto com essa segurança, algo se perdeu. A surpresa. O improviso. A presença sem interrupção.
O ponto X da questão, não é sobre melhor ou pior: mas sobre diferente.
Antes, o encontro exigia presença desde o início.
Hoje, ele começa, aos poucos. Entre mensagens, avisos, ajustes.
Uma pergunta simples: com tanta facilidade para se conectar, por que os encontros soam, às vezes, distantes?
No fio sensível do agora,
Monica


