Há uma infância que acontece entre paredes, telas, compromissos e horários. E existe outra infância que precisa continuar acontecendo debaixo das árvores, com os pés na terra, o vento no rosto e a curiosidade solta pelo mundo. Em tempos em que grande parte da rotina infantil acontece em ambientes fechados, proporcionar o contato com a natureza deixou de ser apenas uma possibilidade agradável. É uma escolha importante para favorecer experiências fundamentais ao desenvolvimento físico, emocional, intelectual e social da criança.
A natureza oferece algo que nenhum brinquedo completamente pronto consegue oferecer: ela não determina como devemos brincar com ela. Um galho pode ser espada, varinha, bengala ou remo. Uma pedra pode tornar-se tesouro. Folhas podem virar dinheiro de uma lojinha imaginária. Um tronco caído pode ser ponte sobre um rio cheio de crocodilos. Uma árvore pode transformar-se em castelo. É nesse encontro entre realidade e imaginação que a criança experimenta o mundo.
Correr em terrenos diferentes, subir, abaixar, equilibrar-se, carregar gravetos, mexer na terra e observar pequenos animais são experiências que envolvem movimento, percepção espacial e coordenação. Mas existe também uma aprendizagem menos visível. Na natureza, nem tudo acontece imediatamente. Uma semente precisa de tempo. Uma flor não abre porque a criança deseja. A chuva muda os planos. Uma trilha exige atenção. Um inseto desperta perguntas. Uma árvore caída obriga a procurar outro caminho. A criança encontra pequenos desafios e aprende a observar, experimentar, adaptar-se e tentar novamente. A natureza também convida à contemplação. Escutar os pássaros, acompanhar uma formiga carregando uma folha, procurar formas nas nuvens ou perceber o vento movimentando as árvores são experiências simples que oferecem pausas em um cotidiano frequentemente marcado pelo excesso de estímulos.
É difícil desenvolver vínculo com aquilo que conhecemos apenas por fotografias. Quando uma criança planta uma semente e espera que ela germine, observa uma borboleta sem capturá-la, aprende que um pequeno animal deve ser respeitado ou descobre que uma árvore oferece sombra, começa a perceber que ela também faz parte da natureza.A consciência ambiental pode começar muito antes de conceitos complexos sobre sustentabilidade. Primeiro a criança conhece. Depois se afeiçoa. E aquilo que amamos temos muito mais vontade de proteger.
Uma alternativa interessante para as famílias é conhecer o escotismo, que historicamente utiliza atividades ao ar livre, convivência em grupo, autonomia progressiva, cooperação, responsabilidade e contato com a natureza como elementos educativos. Acampamentos, caminhadas, jogos, orientação, tarefas coletivas e aprendizado de habilidades práticas podem oferecer experiências muito diferentes daquelas encontradas diante das telas. No Brasil, famílias interessadas podem conhecer o trabalho da Escoteiros do Brasil e procurar um grupo escoteiro de sua região.
Que nossas crianças conheçam computadores, livros e todas as possibilidades de seu tempo. Mas que também conheçam o cheiro da terra depois da chuva, a textura das folhas, o barulho do vento, a sombra de uma árvore e a extraordinária aventura de encontrar uma joaninha no caminho. Uma infância saudável precisa de cuidado, vínculos, conhecimento e oportunidades para descobrir o mundo. E uma parte desse mundo continua lá fora, esperando por elas.
Meu carinho
Monica



