Há símbolos que não foram criados apenas para serem contemplados. Eles nasceram para guardar uma oração, acompanhar uma passagem da vida e tornar visível aquilo que o coração deseja oferecer ao mundo. O Ojo de Dios, conhecido em português como Olho de Deus, é um desses símbolos.
Formado pelo encontro de duas pequenas varas envolvidas por fios coloridos, ele se abre a partir de um centro e cresce em movimentos concêntricos. Cada volta do fio amplia sua forma, como se uma intenção silenciosa estivesse adquirindo corpo, direção e presença.
Em alguns calendários espirituais contemporâneos, o dia 9 de outubro aparece como uma celebração de Wima Kwari, relacionada aos Ojos de Dios. Registros etnográficos, porém, descrevem a Wima’kwari como uma antiga cerimônia do tambor realizada pelo povo Wixárika durante o ciclo de outubro. Trata-se de um encontro comunitário ligado à espiritualidade, à renovação da vida e à restauração do equilíbrio entre as pessoas e as forças sagradas.

O povo Wixárika

O símbolo chamado popularmente de Ojo de Dios pertence à tradição do povo Wixárika, também conhecido pelo nome espanhol Huichol.
Os Wixaritari vivem principalmente nas regiões ocidentais do México e mantêm uma cosmovisão profundamente ligada ao território, aos ancestrais, ao milho, ao fogo, ao cervo, às águas sagradas e à peregrinação até Wirikuta.
Em sua tradição, o universo não é percebido como algo distante da vida humana. As montanhas, os rios, as plantas, os animais e os diferentes pontos do território participam de uma grande rede sagrada.
O Ojo de Dios faz parte dessa maneira de compreender o mundo.
Na língua Wixárika, esse objeto pode ser chamado de tsik+ri, tsikuri ou receber grafias semelhantes.
Ele também está relacionado ao conceito de nierika, expressão que possui muitos significados: rosto, olho, espelho, imagem e instrumento para ver.
Esse “ver”, porém, não se refere somente à visão física.
O nierika representa a capacidade de perceber a realidade espiritual, compreender os mistérios e entrar em contato com aquilo que permanece oculto aos olhos comuns.
Os objetos romboidais tecidos com fios podem funcionar simbolicamente como instrumentos de visão, escudos espirituais e representações do território sagrado. Seus pontos evocam os diferentes rumos do universo e os lugares fundamentais da tradição Wixárika.
O centro do Ojo de Dios é um espaço de mistério. É o ponto silencioso de onde o desenho começa.
Ao redor dele, os fios formam losangos sucessivos, como camadas de experiência, aprendizado e proteção. Em alguns objetos, existe uma pequena abertura central, simbolizando a possibilidade de olhar para o outro lado: o espaço dos ancestrais, das divindades e das realidades invisíveis.

O olho que acompanha a criança

O Ojo de Dios possui uma relação especial com a infância.
Em algumas tradições Wixárika, o primeiro centro é confeccionado por ocasião do nascimento da criança. Ao longo dos primeiros anos, novas cores e camadas podem ser acrescentadas ao tecido até a conclusão de um ciclo por volta dos cinco anos.
Assim, o símbolo acompanha o crescimento da criança.
Cada nova volta do fio representa não apenas a passagem do tempo, mas também a proteção, os ensinamentos e a participação progressiva daquela criança na vida espiritual e comunitária.
Acervos culturais mexicanos conservam Ojos de Dios preparados especificamente para diferentes idades, descrevendo-os como objetos cerimoniais de proteção infantil. Em determinados rituais, esses objetos são levados como oferendas a mananciais considerados sagrados e ligados às divindades femininas das águas.
O gesto de tecer torna-se, então, uma forma de dizer:
“Que esta criança cresça protegida.
Que seus olhos aprendam a reconhecer o caminho.
Que sua vida permaneça ligada ao sagrado.”

A oração que se transforma em fio

Confeccionar um Ojo de Dios não é apenas realizar um trabalho artesanal.
Quando feito com respeito e consciência, o ato pode se transformar em uma meditação.
Ao escolher as varas, estabelecemos a base.
Ao cruzá-las, reconhecemos o encontro das direções e das forças que sustentam a vida.
Ao envolver cada uma delas com o fio, cultivamos presença.
A repetição do movimento acalma os pensamentos e conduz a atenção para o centro. Pouco a pouco, aquilo que inicialmente era apenas uma intenção ganha forma diante dos olhos.
O fio pode guardar uma oração de proteção.
Pode representar um pedido de equilíbrio.
Pode ser tecido como agradecimento por uma cura, por uma passagem da vida ou por uma pessoa amada.
Não é o objeto isoladamente que produz a transformação. Seu sentido nasce da tradição à qual pertence, da consciência com que é confeccionado e da intenção que acompanha cada movimento.

As cores como caminhos

Em uma confecção pessoal inspirada no símbolo, cada cor pode representar uma qualidade que desejamos cultivar.
O branco pode recordar a paz e a purificação.
O vermelho, a força e a vitalidade.
O amarelo, a clareza e a alegria.
O verde, a saúde, o crescimento e a relação com a Terra.
O azul, a serenidade e a proteção.
O violeta, a transformação e a espiritualidade.
Essas associações são contemporâneas e pessoais; não substituem os significados próprios da cultura Wixárika. Elas podem, entretanto, ajudar quem confecciona o objeto a organizar sua oração e permanecer consciente daquilo que deseja oferecer.

Confeccionando com respeito

Antes de iniciar, prepare duas pequenas varas de madeira e fios de diferentes cores.
Cruze as varas, formando quatro direções. Prenda o primeiro fio no centro e comece a passá-lo ao redor de cada ponta, seguindo sempre o mesmo movimento.
Enquanto trabalha, procure manter uma respiração tranquila.
A cada volta, repita mentalmente uma palavra:
Proteção.
Equilíbrio.
Saúde.
Sabedoria.
Amor.
Ao trocar de cor, escolha uma nova intenção.
Não tenha pressa. O valor da prática não está na perfeição do desenho, mas na qualidade da presença depositada nele.
Quando terminar, segure o Ojo de Dios entre as mãos e permaneça alguns momentos em silêncio.

Bênção do Ojo de Dios

Grande Mistério que habita todas as direções,
abençoa este fio tecido com respeito e amor.

Que seu centro me recorde
o lugar de silêncio que existe dentro de mim.

Que seus quatro caminhos
protejam minha chegada e minha partida,
meus passos visíveis
e os caminhos que minha alma ainda não conhece.

Que meus olhos enxerguem além das aparências.
Que meu coração reconheça a verdade.
Que minhas mãos sejam instrumentos de cuidado.

Onde este símbolo permanecer,
que exista proteção sem medo,
força sem violência
e sabedoria para escolher o bem.

Que o olhar do Sagrado
acompanhe, ilumine e abençoe.

Assim seja.

Um presente que oferece proteção

O Ojo de Dios pode ser confeccionado para acompanhar um novo ciclo, proteger simbolicamente um lar ou presentear uma pessoa querida.
Ao entregá-lo, podemos dizer:
“Que o olhar do Sagrado acompanhe seus caminhos.
Que você seja protegido em suas escolhas,
abençoado em seus passos
e conduzido com clareza em todas as direções da vida.”
Presentear alguém com um Ojo de Dios é oferecer mais do que um objeto.
É oferecer tempo.
É oferecer presença.
É transformar fios coloridos em uma pequena morada para a oração.

O Ojo de Dios nos convida a olhar para fora sem perder o contato com o centro.
Quando nos afastamos de nós mesmos, os acontecimentos parecem confusos e as escolhas perdem direção.
Quando retornamos ao centro, não significa que todos os problemas desapareçam. Significa que reencontramos o ponto interior a partir do qual podemos contemplá-los com mais clareza.
Cada fio representa uma experiência.
Cada cor, uma qualidade.
Cada volta, um aprendizado.
E o centro permanece silencioso, lembrando que, por trás de tudo o que muda, existe em nós um lugar que observa, acolhe e sabe retornar.

Que nossos olhos estejam abertos.
Que nossas mãos teçam caminhos de beleza.
E que toda intenção de proteção comece pelo respeito à vida.
Assim Seja, Assim é!
Monica